Transição de Carreira: mais cedo ou mais tarde você fará a sua! - por Joana Rudiger


Já faz algum tempo que li que a Chanceler alemã, Angela Merkel, provavelmente (no meu ranking pessoal, com certeza) a mulher mais poderosa do mundo, anunciou que estava se preparando para uma transição de carreira. Como vocês devem saber, ela anunciou ano passado (2018) que iria deixar a presidência de seu partido, e sua sucessão é um assunto de Estado. Na notícia que li sobre o tema ela dizia: “Algum dia quero encontrar o jeito certo de sair da política”. Mas o curioso com relação ao seu statement é que esta frase foi dita por ela em 1998, ou seja, há mais de 20 anos!!!


Sabemos que alemães são os reis do planejamento, mas começar a pensar numa transição de carreira 20 anos antes de concretizá-la, me deixou reflexiva sobre como este tema é tratado pelos pobres (ou ricos) mortais aqui no Brasil.


Tendo trabalhado os últimos 20 anos em grandes corporações, sempre tive a impressão que a transição de carreira das pessoas nunca era muito bem planejada. Ou a empresa decidia que chegara sua hora, sem uma participação muito ativa da parte do funcionário, ou o próprio funcionário num momento de “saco (muito) cheio” se mandava: também de forma repentina, sem se preocupar muito com sua sucessão ou com o quê a empresa pensava sobre aquilo.


Com a expectativa de vida aumentando e com todos os problemas previdenciários que nos rondam, além dos malefícios do sedentarismo ocupacional cada dia mais conhecidos, me parece que o futuro chegou! Não faremos só uma transição de carreira, do escritório para o sofá da sala. Faremos, na verdade, várias transições ao longo da vida profissional, sendo que uma das mais importantes vai acontecer ali por volta dos 50 anos de idade (novo mid-life?) e talvez não será a última.


Mas as perguntas que não querem calar:

● Como se preparar para essas transições ou ao menos para as mais importantes?

● Será que temos, assim como a Angela Merkel, que começar a nos preparar e pensar no tema com 20 anos de antecedência?

● É possível um planejamento de tão longo prazo no mundo em transformação como já temos vivenciado e que com certeza ficará ainda mais volátil?

● Tem como fazer uma transição sem traumas para as partes?


Claro que não tenho as respostas... mas vou compartilhar com vocês algumas reflexões e experiências pessoais.


Planeje o quanto der: eu comecei a planejar minha própria transição de carreira um ano antes dela acontecer. Como trabalhava em RH, queria que ela fosse um bom exemplo de “transição não-traumática” para todas as partes. Fiz pesquisas, contas, fiz até ppt imaginária com pilares de sustentação com um mini-plano estratégico. Conversei muito com muita gente e tive a sorte de estar em uma empresa e com chefes à minha volta que estavam dispostos a me ouvir.

Prepare-se para não estar pronto: mesmo com algum planejamento, não será simples. A verdade é que na hora “H”, você, como CEO da sua carreira, também terá que tomar decisões difíceis e se sentirá solitário. E terá medo, inseguranças aparecerão e você perderá o sono. As mesmas coisas das quais você queria se libertar quando decidiu que era hora de fazer algo novo na sua carreira e de se aventurar em uma transição.

Traduza com carinho as mensagens das outras pessoas: muitas pessoas falam da minha coragem quando conto a minha história de transição. Sempre acho que quando me dizem isso é porque fiz alguma bobagem. Outras dizem que pareço mais feliz. Também desconfio desta afirmação, pois felicidade é algo muito complexo. Já outras falam que tomei a decisão correta, pois estou mais perto do meu propósito. Neste caso fico pensando: se nem conhecem o meu propósito verdadeiro, como podem saber? Uma pessoa me disse uma vez que eu tinha feito a transição “perfeita” porque mudei, mas não muito. Continuo lidando com os mesmos temas, só que finalmente posso ver mais rápida e concretamente o resultado do meu trabalho. Este é o comentário com o qual eu talvez mais concorde.

Conte com chateações: mesmo tendo se livrado de um monte de coisas de que você não gostava na carreira/vida anterior, prepare-se para novas e, às vezes, nem tão novas chateações. Elas são inerentes ao processo de viver. Vai aparecer gente chata, gente mais sabida, gente cobrando (inclusive você mesmo), gente de todo jeito no seu caminho. Se sua nova opção de carreira tiver algum tipo de responsabilidade, vai ter chateação. Exatamente como antes. Mas talvez sejam novas, sejam diferentes e você poderá aprender e vivenciar sensações que não conhecia antes. Este é o lado bom.

Trace objetivos: assim como na sua carreira anterior, coloque objetivos claros e monitore-os. Isso, igualzinho antes, como você fazia na empresa. Mas faça para você, não para seu chefe ou por causa do bônus. Veja se algumas das coisas que você pretendia alcançar ao fazer a transição estão acontecendo, se você está mais próximo de alcançá-las. Se sim, ótimo. Se não, recalcules sua rota.

Lembre-se que a atual pode não ser a última: como já mencionei, acredito que as pessoas farão mais de uma transição de carreira durante sua vida profissional. A imagem que me vem à cabeça é que o caminho para alcançar os objetivos da transição não seja uma viagem de avião, do tipo “decolo em A e aterrisso em B”. Imagino que esteja mais para uma escada, com vários degraus, várias etapas até você realmente alcançar o objetivo final da transição.


Com certeza a Frau Merkel não terá dúvidas e nem precisará rever seus planos, já que ela, como boa alemã, está pensando nisso e se preparando há mais 20 anos. Mas se você é, como eu, só uma simples mortal brazuca, boa sorte!


Joana Rudiger

Presidente Enactus Brasil

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