Respeite os sinais - por Marília De Camargo

Atualizado: Mar 11


Eu tive uma chefe que tinha orgulho de dizer em alto e bom som que era workaholic.


Essa executiva glorificava o fato de viver ocupada, com a agenda lotada, repleta de reuniões, saindo tarde da empresa todos os dias e vendo os filhos uma hora por dia quando muito. Acontece que nem sempre isso é sinônimo de competência e de entrega de resultados. Vão existir momentos em que você terá de trabalhar duro? Claro que sim, mas isso não deve ser uma constante. Equilíbrio é fundamental.


Digo isso hoje, mas eu já fui uma workaholic de carterinha. Depois de cinco anos na mesma empresa, mais de 10 kg acima do meu peso, infeliz, vivendo estressada todos os dias, eu só tinha um único assunto: cerveja. Cheguei ao ponto de brigar com familiares e amigos que ousavam consumir produtos da concorrência quando estavam comigo.

Uma total falta de respeito, eu sei. Trabalhar 48h sem descanso para fazer o Carnaval acontecer no Anhembi? Ok! Receber ligações no meio da madrugada e sair literalmente correndo para resolver pepinos? Ok. Estar de férias no exterior e passar os dias conectada e respondendo e-mails? Ok.


Vivia pelo lema “meta dada é meta batida”. Sabe o que chegar no trabalho e ter marcado em uma lousa quantos hectolitros tem de ser vendidos no dia? Lidava com rankings e pressão constantes. Cheguei a chefiar um time de sete homens. Acontecia de dois faltarem ao mesmo tempo. Como alcançar os objetivos com dois vendedores a menos? Eu ia para a rua e fazia as rotas que estavam designadas para eles: padarias, restaurantes e bares. Centenas de quilômetros rodados em um dia. Você tem de dar o exemplo, tem de fazer acontecer – não importando as condições. Inúmeras vezes eu assumi papéis e responsabilidades que não era minhas para poder entregar os resultados exigidos.


Dedo na cara, palavrões e gritos eram práticas comuns. Nunca me esqueço de uma reunião com outras seis gerentes de trade – todas mulheres – em que eu fui a única a não chorar na frente do nosso chefe, que era homem. Aliás, eu era constantemente elogiada por ser “uma mulher que não chorava”. De fato, sempre fui um poço de resiliência. Nunca me intimidei fácil. Sempre acreditei em entregar resultados com criatividade, me reinventando quando fosse necessário.


Durante uma viagem de final de semana para o Rio de Janeiro, minha ficha caiu. Qual era meu propósito vida? Meu trabalho está alinhado com esse propósito? Não estava. Decidi mudar minha vida e passei a buscar trabalhos que estivessem em sintonia com minhas crenças.


Anos mais tarde, recém-chegada em outro emprego, fui chamada na sala do VP. “Você é a garota da faca na caveira? A garota com sangue nos olhos?”, questionamento feito justamente por conta de meu histórico.


Serenamente, respondi: eu sou Marilia, tenho um histórico e oito anos de carreira. Aprendi por experiências práticas e vivências que o jeito hard nem sempre é o melhor para conquistar objetivos.


No Linkedin é tudo muito bonito. A teoria é fácil. Mas quantas e quais são as empresas que realmente estão preocupadas com o bem-estar mental e físico dos seus funcionários? Não adianta ter um slogan que fale de vida saudável se o refeitório da empresa oferece alimentos de péssima qualidade, que colaboram para aumentar colesterol, diabetes e deixar a pressão alta. Não adianta ter benefícios como a academia gratuita e short Friday, se os funcionários são encorajados a sair tarde todos os dias e não são incentivados a usufruir o que é oferecido. A tentativa de implantação de uma política visando a saúde não funciona se não está em sintonia com a direção da empresa. Ninguém vai pegar a bolsa e sair às 15h na sexta-feira se toda a chefia não compra a ideia e não dá o exemplo.


Passei por empresas em que o dia-a-dia era uma montanha russa. Em uma ocasião, você tinha um milhão de reais para um projeto, em outra estava lidando com produção suspensa por 60 dias, salários atrasados e cortando benefícios. Mas independentemente de onde estou, sempre levo comigo as pessoas. Desenvolvo minha equipe, me desenvolvo e todos evoluem juntos. Eu acredito no fator de sustentabilidade humana, aposto em times bem preparados e em diversidade. Para usar um termo que está bastante na moda, sou people centricity. E realmente acho que precisamos parar e perceber quando um trabalho não está mais de acordo com nossas crenças e propósitos de vida. Vale a pena manter-se em um emprego que não está te fazendo bem para sua saúde mental e física?

Na época que morei no Rio de Janeiro, comecei a praticar ioga e meditação. Incorporei essas duas ferramentas à minha rotina. Tenho certeza que as práticas me ajudam a ser uma profissional melhor, uma líder mais centrada. Tanto acredito nisso que, paralelo a minha carreira executiva, decidi começar um curso de formação em ioga. Tudo no universo está interligado.


Respeite os sinais.



Marília de Camargo

Entusiasta no marketing de causa, yogini e mãe do vira lata Carioca.


Frase: "Quando vc muda o seu interior, o externo reflete os novos ideais".

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