O poder de transformação da Educação - por Sirlene Domingues



Meu nome é Sirlene e vou relatar aqui um pouco da minha historia. Tentarei ser o mais breve possível já que os acontecimentos da minha vida dariam para escrever um livro.

Não me orgulho em ter que falar do meu passado, mas todo caminho nos leva a algum lugar e toda escolha define um caminho! Minhas escolhas passadas me levaram a caminhos tortuosos e difíceis que me marcaram muito, mas também me ensinaram muitas coisas e a tempo pude mudar minhas escolhas e refazer o caminho. Orgulho-me do meu hoje, do meu Presente onde mesmo em meio às dificuldades sou feliz pelo que conquistei, sou feliz por ter encontrado Deus e desfrutar da tua graça e misericórdia!


Nasci do dia 23 de abril de 1976 na Cidade de Salvador na Bahia, com apenas alguns meses de vida vim embora para São Paulo com minha mãe, meu pai e minhas duas irmãs mais velhas. Minhas irmãs nasceram em São Paulo e somente eu nasci na Bahia. Mais tarde descobri que o motivo pelo qual nasci lá foi devido ao fato de meu pai ter ido para lá com minha mãe com o intuito de fugir da policia. Meu pai conheceu minha mãe lá, na Bahia, quando estava foragido, quando se conheceram e se casaram ele chamava-se Carlos Domingues, porém quando faleceu em 1994 dentro da Penitenciaria do Estado de São Paulo (PE), minha mãe descobriu que o verdadeiro nome dele era Sebastião Domingues. Minha pobre mãe, analfabeta que era nunca soube que meu pai não se chamava Carlos e sim Sebastião. Como naquela época era mais fácil tirar registro de nascimento ele simplesmente tirou um segundo registro com o qual se casou com minha mãe e registrou os seis filhos que com ela teve, inclusive eu! Resumindo, minha mãe levou uma vida turbulenta com ele, onde apanhava constantemente, presenciei muitas brigas dos dois e em algumas delas fui machucada.


Minha mãe teve que fugir conosco abandonando tudo para trás a fim de se livrar das agressões, e quem ajudou na fuga foi minha própria Avó paterna já que a policia não dava jeito na situação. A partir de então minha mãe trabalhava em dois empregos para manter os seis filhos e era raro ela ter tempo para desfrutar com os filhos, vivíamos uma vida de privações... privações de coisas matérias e privação de carinho de mãe e pai... Éramos órfãos mesmo tendo mãe presente e pai vivos. Crescemos em meios as privações e lutas e cada um seguiu seu caminho carregando uma bagagem de dor.

Graças a Deus meu irmão e irmãs não deram tanto trabalho e desgosto para mim mãe como eu, fui a ovelha negra da família por um longo tempo.


Com 13 anos de idade já trabalhava para comprar minhas roupas e sapatos, pois não aguentava mais passar o ano todo com uma única roupa e sapato “novo”, aquele que ganhávamos no natal seria o que usaríamos o ano todo para ir as festa (que eram raras) e ao medico. Enfim, sai de casa com 17 anos quando me casei com um ex-traficante, usei muita droga (todas que puderem imaginar), tive um filho e me separei... minha história com ele daria um outro livro.


Com meu primeiro marido tive dois filhos maravilhosos que já são grandes homens, o mais velhos Lucas, já é formado em Análise e Desenvolvimento de sistema e o Abner com 17 anos já segue o mesmo caminho do irmão e é muito inteligente, ambos moram no litoral com o pai que hoje é Cristão e Graças a Deus mudou sua escolha e encontrou um novo caminho na vida, um caminho do Bem. Quando me separei dele o Lucas tinha um aninho e eu usava muita droga, me envolvi com pessoas da pesada e comecei a participar de roubos a banco. Fui presa em 1997, tenho revista e jornais com matérias a respeito da minha vida (Revista ELLE 1999, falando sobre Beleza no Cárcere), enfim, fiquei quase quatro anos presa, e quando sai retomei meu casamento inicie a faculdade de farmácia na Universidade Santa Cecília em Santos em 2003, curso que não terminei.


Separei-me novamente e novamente voltei a fazer coisas erradas, fui presa novamente em 2009, grávida da minha primeira filha, a Isabelly Nicolly que nasceu no Hospital Penteado em São Paulo e ficou oito meses presa comigo no Hospital Penitenciário. Hoje é uma garota linda de nove anos que amo muito. Quando a entreguei para minha família tive uma grande depressão e quase morri na cadeia. Quando sai, em 2013 ela já tinha três aninhos e a partir dali recomeçamos nossas vidas. Dava aula para as outras presas dentro da penitenciaria do Estado (PE) que antes era a penitenciaria masculina (onde meu pai havia morrido), tive a triste experiência de estar presa por mais de um ano no mesmo local onde meu pai esteve preso e morreu, a Penitenciária que era Masculina e hoje é Feminina. Dava aula pela FUNAP e era remunerada pelos meus serviços. Prestei o Exame do ENEM e quando sai fui selecionada no processo em que me inscrevi do PROUNI e ganhei uma bolsa de 100% para concluir meu curso de farmácia.


Resumindo, hoje sou a Doutora Sirlene Domingues, Farmacêutica. Por enfrentar o preconceito da sociedade quanto ao fato de ser uma ex-presidiária tive grandes dificuldades para conseguir trabalho, os que consegui foi através de concurso que prestei e passei. Hoje com a ajuda da minha mãe que efetuou um empréstimo para me ajudar, eu comprei uma farmácia na Cidade de São Caetano do Sul, em São Paulo (Drogaria Masai), onde trabalho com muito amor e orgulho. Comprei a farmácia parcelada, e hoje pago as prestações da farmácia e as prestações do empréstimo que minha mãe fez e não tenho capital de giro para trabalhar. Moro em um apartamento que foi hipotecado pelo antigo dono e corro risco de ser despejada. Desocupei recentemente o apartamento para poder alugá-lo e com o valor do aluguel pagar algumas dividas. Sei que na minha pouca força e luta irei conseguir. As lutas em nossas vidas são constantes!


Como dizem: não há Vitórias sem Lutas!


Sei que a cada passo que dou caminho em rumo a uma nova conquista. O fato de estar aqui hoje viva, de pé e tendo o titulo de Dr.ª já é uma grande conquista e o que chamo de “Meu Grande Milagre”. Digo milagre porque em 2015 quando estava cursando a faculdade, trabalhando em uma Unidade de Pronto Atendimento na Cidade de São Bernardo do Campo (UPA), a Justiça determinou que eu retornasse a cadeia porque o Promotor havia recorrido da minha sentença e a mesma havia aumentado. Como eu estava em regime de liberdade condicional a Justiça determinou que eu voltasse a ser presa após quase três anos na rua totalmente reintegrada a sociedade e reconstruindo minha vida dignamente, queriam me lançar novamente no inferno e já haviam até mesmo designado uma vaga para mim no Semi Aberto de Butantã. Mas Graça a Misericórdia de Deus no último minuto do segundo tempo o Milagre aconteceu e a Juíza da Comarca de Santo Andre , onde se encontrava minha execução criminal e onde eu assinava todos os meses a minha carteirinha, me concedeu o Perdão de Pena. Imagina eu tendo que voltar para cadeia,abandonar emprego, minha filha que já havia passado tanto tempo longe de mim e a faculdade.... Penso que a Justiça muitas vezes não é somente cega e sim também INJUSTA. Eles deveriam ter Agentes, Assistente Social ou qualquer outro profissional capacitado que fosse designado para acompanhar as pessoas que estão em cumprimento de pena e estão sendo reintegradas a sociedades... mas que sonho meu né (risos) estamos no Brasil!


Bom,continuando a minha história.... Moro sozinha com minhas duas filhas a Isabelly de nove anos e a Heloisa de dois aninhos (Nos mudamos recentemente para os fundos da farmácia) ambas são totalmente dependentes de mim.


Além disso, quero divulgar um projeto que visa ajudar mulheres que assim como eu esperam uma única chance para mudarem sua historia. Muitas ex-detentas me procuram pedindo auxilio para continuar estudando, para trabalho e enfim eu faço o que posso para ajudá-las e sei que com a ajuda de outras pessoas poderei fazer muito mais. Meu objetivo é ajudar outras mulheres que assim como eu só precisam de uma oportunidade. Hoje fico das 8h da manhã as 20h da noite na farmácia, as meninas estudam período integral e no final da tarde fecho as portas de vidro da farmácia para buscá-las na escola. Mas sei que futuramente terei condições de pagar um funcionário que me ajude aqui na drogaria e terei mais tempo para me envolver em projetos e colocar tudo que almejo em ação.


Até lá, sigo na minha luta!


Sirlene Domingues

Proprietária da Drogaria Masai

Rua Giuseppe Braido, 111 - São Caetano do Sul

https://www.facebook.com/drogariamasai/


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