Fazer uma transição de carreira é muito mais do que trocar de emprego por Marcos Freire

“A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,

Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.

Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...

Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!”


Foi assim, como no poema do Mário Quintana, que chegamos em Portugal, no dia 1 de janeiro de 2018. Ano novo, vida nova. Literalmente. Viemos de longe, cruzando o Atlântico, e com a sensação inequívoca que tínhamos de fato todos os caminhos do mundo abertos diante de nós. Não que tenha faltado planejamento, mas esse sentimento de “seja o que Deus quiser”, da certeza de que o acaso iria nos proteger, foi justamente o que nos fez querer largar a agenda lotada do Outlook e o email corporativo para “fugir de casa”. Meu nome é Marcos, sou jornalista formado pela PUC de São Paulo, com pós graduação na FGV (CEAG) e MBA pela Fundação Dom Cabral, casado, dois filhos, uma mulher que teve o papel fundamental de atiçar o desejo da mudança e, ao mesmo tempo, representou o meu porto seguro, o cordão que me mantinha conectado a algumas referências importantes de vida, como um astronauta descobrindo todas as possibilidades do infinito, mas sem deixar de estar ligado à nave-mãe.


Trabalhei em órgãos do governo, em já extintas empresas estatais, em agências de propaganda, em agências de relações públicas, em veículos de comunicação e, nas últimas décadas, principalmente em grandes multinacionais, sempre na área de comunicação e assuntos corporativos. Muitas mudanças ao longo da carreira, sempre com algum stress e alguma angústia. Mudanças porque quis, mudanças porque quiseram. Mudar significa começar praticamente do zero e sempre dá um pouco de medo. Reconquistar espaço, estabelecer novos vínculos com as pessoas, entender cenários. Numa das mudanças, lembro que uma consultora na minha transição de carreira foi enfática: “Marcos, neste começo na nova empresa, ouça mais e fale menos. Você não conhece as pessoas, não sabe decifrar os códigos da cultura da companhia, tampouco percebe as sutilezas das ironias, das metáforas e mesmo do humor (bom ou mau) dos seus novos pares, superiores ou subalternos”.


E se é assim quando trocamos de emprego, imagine quando trocamos de país. E sem emprego. Pois é. Quando decidimos dar essa guinada, largamos tudo e viemos. Na bagagem, um ou outro contato, mas nada que se parecesse com um verdadeiro “network” profissional. Mas era justamente o que buscávamos: reescrever a nossa história, sem os modelos que conhecíamos até então. Tem um custo (praticamente viramos estagiários novamente ou tivemos que encarar mercados e setores desconhecidos para nós) e reconheço que não é uma alternativa que faça sentido para todo mundo. Para nós, funcionou, ainda que vez ou outra pensemos “e se a gente tivesse ficado por lá, tivesse aguentado um pouco mais a rotina estressante do trabalho numa multinacional etc etc”. Pensamos, mas logo passa.


Viemos morar numa cidade pequena, sem grandes empresas, com um mercado de

trabalho reduzido. Então, currículo debaixo do braço (aliás,

uma dica: há um modelo específico de CV que usam por aqui e vale a pena ajustar a “versão” brasileira para o padrão europeu) e saímos literalmente batendo de porta em porta, nos locais onde achávamos que nossa experiência poderia fazer sentido (para nós e para o empregador). Nesse processo, alguns aprendizados que compartilho com vocês, mesmo que eu saiba que as jornadas podem não ser exatamente iguais para todos e que a minha percepção foi moldada em um curto espaço de tempo e em um mercado bastante pequeno. Para começar, não aposte tudo nas suas possíveis credenciais de alto executivo ou de liderança em grandes empresas. Não que seja desprezível, mas o peso do “status” passado ao focarmos no mercado de uma cidade pequena é menor. É como se trouxessem para o mundo do trabalho o clássico “disclaimer” do mercado de ações, que alerta os investidores que os resultados positivos do passado não garantem o mesmo sucesso no futuro. Por outro lado, o que vi e vivi até agora mostram que qualquer trabalho por aqui é digno. Ninguém precisa ser diretor de multinacional para ser “importante”. Talvez porque as diferenças salariais sejam tão menores (comparado com o Brasil) entre os diversos “work level”, ninguém é tão mais “rico” do que ninguém. Ninguém precisa ter o carro do ano, viajar para a Europa todo ano (ops, já estamos na Europa), usar roupas de grife etc. Então, o negócio é levantar a cabeça e partir em busca do trabalho, sem ligar muito para o título do cargo.


Hoje, trabalho em um hotel e dou algum suporte às midias sociais do empreendimento. De alguma forma, a comunicação e a gestão continuam no centro das atividades. Falo com hóspedes, recebo-os, cuido dos processos de entrada e saída junto com outros colegas, aventuro-me pelo bar, encaro planilhas financeiras e até pela cozinha dou umas passadas. E é um trabalho sério, valorizado, correto. Mas que só surgiu porque me fiz aberto a todas as possibilidades, não me preocupei com os antigos paradigmas da minha “vida passada”. Precisa flexibilidade? Muita. Gera algum autoquestionamento sobre o futuro, sobre desenvolvimento profissional, sobre estar ou não no lugar certo?

Claro que sim. Mas nada que não acontecesse se eu ainda fosse diretor numa grande empresa. E com a vantagem de eu não ter uma agenda do Outlook lotada de compromissos por dois ou mais meses, não ter email corporativo para responder de madrugada, não perder tempo em reuniões de trabalho diárias e por aí vai. Ok, não tem bônus, carro da empresa, ações, previdência privada... Mas o que te faz feliz? Trocar de país quando ainda é preciso trabalhar representa realmente uma grande mudança. E todos aqueles clichês que lemos por aí fazem muito sentido: precisa resiliência, precisa humildade, precisa muita flexibilidade, precisa muita energia, precisa estar aberto para o novo, precisa engolir alguns sapos. E precisa ter o coração leve, bom humor. Procurar emprego batendo de porta em porta pode ser desanimador algumas vezes. Por outro lado, é uma chance de conhecer gente nova, de se apresentar, de mapear melhor os cenários, entender os humores e até mesmo descobrir a cidade em que escolheu viver.

No final, tudo depende de como você prefere encarar a nova realidade.


Por isso, também termino com o Mário Quintana e a felicidade:


“Quantas vezes a gente, em busca da ventura,

Procede tal e qual o avozinho infeliz:

Em vão, por toda parte, os óculos procura

Tendo-os na ponta do nariz!”

Fazer uma transição de carreira é muito mais do que trocar de emprego ou de trabalho.

E quando a carreira transita junto com a vida, com a escola do filho, com o apartamento novo, a cidade nova, os amigos novos, os medos, as incertezas, é mais do que importante encontrar a felicidade nas pequenas coisas que muitas vezes estão diante dos nossos olhos, na ponta do nariz. Viva a mudança!


Marcos Freire

Jornalista

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